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I.

O meu museu e o teu

 

Eu nasci em 1950 em Arganil, vila serrana da Beira Litoral interior.

Em Arganil era muito pouco frequente ver um forasteiro. Apareciam nos princípios de Setembro uns lisboetas, por ocasião das festas de Nossa Senhora do Montalto, que, na minha óptica de rapazola provinciano, vinham por causa das farturas, dos churros, do carrossel e dos carrinhos de choque.

Vinha também a comitiva do António Calvário e do António Mourão.

E vinham ‘’os brasileiros’’, emigrantes ricos recentemente regressados ao lar, ou de férias. Exuberantes, ostentando prosperidade e bem estar, eram talvez o que mais se aproximava da ideia que me tinham inculcado de turista.

Só em verdade entendi que os turistas não eram bem assim aos onze anos, quando saímos de Arganil uma manhã, de automóvel, os meus pais e cinco filhos, e acordámos duas manhãs depois em Paris.

Quando me espreguicei e limpei a ramela dos olhos, olhei pela janela do quarto do hotel e fiquei desolado. Era confrangedor. Aqueles eram supostamente os turistas que faltavam em Arganil. Tinha partido de Arganil para Paris entusiasmado. Ia finalmente ver turistas a sério.

Em Paris, em 1961, os turistas pareciam-me todos emigrantes ou refugiados argelinos.

Até sair de Arganil para Paris, tinha apenas saído para a Figueira da Foz e Buarcos onde passávamos, quando o meu pai não tinha que ficar fora durante as férias, um mês a banhos. Nessa altura, na Figueira da Foz, ainda só havia turistas no Grande Hotel ou no Casino. Mal se viam. Mau grado o esforço de António Ferro, os turistas da Beira ainda não iam aos fados.

Tinha também saído com o meu pai para Espanha durante alguns períodos, mas ir de Arganil para Espanha parecia-me sempre ir ao Piódão.

Os turistas mais turistas que conheci até aos meus onze anos foram a Vera Leisner, arqueóloga alemã que vinha participar nas campanhas de verão com o meu pai, e o Schubbart, um sujeito grande e gordo que comia as batatas fritas, o frango e o chouriço com as mãos e mergulhava depois na mesa de campo a desenhar numas folhas de papel milimétrico todas besuntadas.

Os trabalhos turísticos da Vera Leisner circunscreviam-se a, nos intervalos, atirar seixos para o rio ou para a ribeira e ficar a ver a ondulação concêntrica a espraiar-se. Desabafava então: ‘’Os alemães têm a suástica, os portugueses têm a espiral’’. Era assim que dizia mal dos portugueses.

O turismo uns anos depois estava, para mim, de resto, assim caracterizado. Os turistas eram uns sujeitos metediços que vinham de fora dizer mal de nós ou fazer chacota à nossa custa.

Quando chegou a minha vez de ir por aí fora com toda a liberdade como turista, para Frankfurt, Mainz, apenas já levava um destino turístico, Berlim, o outro lado de Berlim.

Como a minha passagem por Berlim não pôde durar mais do que uma noite e uma manhã, perdi-me então pelas catedrais alemãs.

‘’Die Rote Kapelle’’.

Bem, entrei no tema assim ironicamente, o estilo agora corrente de passeio pelas memórias intimistas, enquanto tento encontrar uma brecha por onde me esgueirar para atacar um tema perigoso, porque sei já que vou incitar à cólera todos os oportunistas.

 

Sempre tive a ideia de que Portugal nunca correspondeu nem respondeu de forma tão unânime e em uníssono às expectativas dos turistas como no final da década de 1950 e no início da de 1960.

O Portugal de 1958 era tal qual fora retratado pela Exposição do Mundo Português. Se cada rincão do Portugal remoto não pudesse corresponder a um cantinho da Praça do Império engalanada, deveria ser imediatamente riscado dos guias turísticos. Mas o ideal seria mesmo que os turistas pudessem viajar sem escalas e a alta velocidade da Praça do Império para Guimarães e de Guimarães para Vila Viçosa, um almejado propósito nunca alcançado.

Mas havia mesmo um grande número de turistas que se perdia no Cais do Sodré.

 

Ninguém ainda realizou um estudo profundo sobre a explosão da actividade turística em Portugal nos fins da década de 1960 e início da de 1970, tentando determinar as suas causas, o seu contexto e a alteração de paradigma.

Um grande número de emigrantes regressava a Portugal e aos seus ninhos de origem por todo o território, com uma grande incidência no interior remoto e no litoral deserto.

 

Num país em que o fenómeno concentracionista do tecido empresarial deixava sem grande alternativa o empreendorismo local, familiar e individual, em que já nem os ‘’patos bravos’’ sobreviviam face à arremetida avassaladora do J PIMENTA e outros, onde a concentração urbana alcançara taxas dramáticas, o turismo era uma salvação e uma redenção. Os emigrantes, para mais, traziam os meios financeiros para superar a falta de apoio estrutural.

Montar uma barraca de pau na praia para vender umas artimanhas culinárias na praia era um investimento de raiz ao alcance da bolsa de qualquer emigrante.

O turismo, o frango de churrasco e um nunca acabar de actividades subsidiárias.

 

Ora, foi o paradigma da actividade turística que explodiu na transição da década de 1960 para a de 1970 que impôs ao turismo, em Portugal, o modelo que jamais conseguiria sacudir do seu capote.

O património é desde então a soma dos cafés e torradas que vende. E este é o dilema do turismo e do património em Portugal.

 

No que respeita ao turismo doméstico é muito fácil entender porquê. Os portugueses não têm cultura ou ‘’literacia’’ para consumirem turismo cultural. Uma vez que a razão de ser do turismo cultural e do património é vender cafés e torradas, nunca elevou a cultura nem a taxa de ‘’literacia’’ dos portugueses de modo a que se tornassem consumidores de património e não de cafés e torradas. De resto, os portugueses consomem sobretudo vinho e coiratos, hábitos incompatíveis com a cultura museológica, ou museográfica, ou museofágica, museotrágica, como queiramos dizer.

 

De resto, perante a progressiva elitização do sistema de ensino em Portugal e a expectativa da redução da escolaridade obrigatória até à conclusão do pré escolar, ainda avaliaremos a sustentabilidade do sistema pelo movimento de caixa das cantinas e dos bares escolares.

 

É desta perspectiva, talvez muito pessoal mas que não consigo superar, que tento reflectir e partir para a formulação de um novo paradigma para novas definições de património e novas formulações da relação do consumidor com ele.

 

Resta-me um breve registo para deixar os pressupostos claros e bem assinalados.

Se a cultura dos portugueses e os seus hábitos culturais só puderem ser elevados na medida em que se elevar o seu consumo das indústrias culturais e turísticas, teremos a cultura dos portugueses captiva do sucesso dos agentes do ‘’marketing’’ e da indústria cultural.

 

Vou tentar conjecturar o panorama que me parece estar a desenhar-se. E assinalar todas as contradições hipócritas sobre que, hipocritamente, se constrói o novo paradigma da relação da comunidade com o seu património, cada vez mais usufruto de uns tantos para consumo da maioria.

É de resto este o pressuposto de ‘’indústria cultural’’. O de que a cultura, ou no caso o património, seja objecto de apropriação de uns quantos para consumo dos demais.

 

 

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