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Pai! Hoje não vou à escola!

por MCN, em 14.10.14

Pensei em apresentar este novo ''bestseller'' com um episódio narrativo de ficção, desenvolvendo o seguinte diálogo:

 

"- Pai! Hoje não vou à escola!

- Meu querido filho! Boa! Não vais tu nem eu! Também fiquei ontem desempregado. Já não preciso de que vás para a escola.''

 

A demagogia é um danado dispositivo de sobrevivência e oportunidade.
Durante as últimas semanas, muitos ''utentes'' da escolaridade obrigatória terão causado irritação aos seus pais logo pela manhã.

''Pai! Hoje não vou à escola!''

 

Vou acompanhando com algum sarcasmo a ''guerra de almofadas'' entre Nuno Crato e uma oposição que cavalga o descontentamento dos professores que ganharam, há uns anos, com Nuno Crato, a guerra contra o ''eduquês''. Nuno Crato continua coerente com a sua guerra contra o ''eduquês''. Os professores é que não têm vergonha na cara. Um ensino reduzido à sua básica componente curricular continua a ser o sonho da maioria dos professores. Fraccionar a matéria em módulos, programar e calendarizar. Para aqueles a quem o fato não serve, o sistema dispõe da retenção. Ou da pena máxima, que continua a ser a ''transição de ano'' com a muleta às costas.
Em fins de Outubro de 1996, ou talvez início de Novembro, o caso de Catarina (nome fictício como agora está em voga) desabou no Conselho Pedagógico da Escola EB23 de Estremoz. Transitava de um Conselho de Turma de que era presidente. Detalhes de distribuição de serviço.
A Catarina ainda não se apresentara na escola e todos os professores se manifestavam preocupados com o seu paradeiro. Entre alguns professores circulavam rumores tenebrosos. Estava-se na antecâmara do ''caso Casa Pia?''.
''Terá sido vendida?'' ''Já alguém foi a casa dos pais?'' Alguns sugeriam ou exigiam a mobilização da Guarda Nacional Republicana. A escolaridade obrigatória também é um dever imposto por lei.
Com alguma ingenuidade e talvez insensibilidade, comuniquei ao Conselho:

''Já contactei com os pais. A Catarina tem andado com a família na apanha da azeitona. Vai regressar à escola na próxima semana. Na maioria, os senhores são daqui, deviam já saber que os ciganos sobrevivem, durante estes meses, da apanha da azeitona. Alguns. Querem mesmo mandar lá a Guarda?''


Um professor obeso, já sexagenário, respondeu gaguejando:

- ''Sendo assim, não vale a pena. O melhor seria que a apanha da azeitona durasse até Junho.''
Todos os presentes gritaram um ''apoiado'' inflamado.

O direito de não ir à escola também é um direito prosélito e classista, de que só usufrui quem não tem o dever e a obrigação de lá ir.

Hipócritas!


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16:55

O erro de Nuno Crato

por MCN, em 18.09.14

O Papa João Paulo II pediu um dia perdão a Deus pelo mal feito pela Igreja Católica aos judeus.
Os judeus continuam à espera de que Deus ou o Papa em seu nome lhes peça desculpa.
A Ministra da Justiça pediu ontem perdão aos portugueses pelos incómodos causados pelo caos do CITIUS. Ameaçou logo de seguida os funcionários do seu ministério com um inquérito para atribuir responsabilidades,
O Nuno Crato pediu hoje no Parlamento perdão aos portugueses, aos professores, aos alunos, aos pais, aos deputados, pelos incómodos causados por um erro acidental na colocação dos professores.
Mas anunciou logo de seguida que pretendia fazer HISTÓRIA. Pelo que ficamos sem saber se o erro foi a condição necessária e suficiente para que o ministro pudesse pedir perdão e fazer HISTÓRIA.

Pedir perdão começa a tornar-se um hábito e um propósito de fazer história.

Vamos conceder um perdão geral aos gajos?


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19:36

Risco de eclosão de uma inesperada guerra intestina no mercado de trabalho.

O contencioso nasce no topo da pirâmide do mercado de trabalho qualificado, entre graduados antes e depois do ‘’protocolo de Bolonha’’. A iniciativa das hostilidades parte dos arquitectos mestrados antes de Bolonha.

O travar de razões vai decorrer nos espaços de recreio dos ‘’call center’’, entre dois breves intervalos para uma beata.

De novo, o sistema desloca as conflituosidades para a rua, onde as minorias e maiorias étnicas se confrontam.

 

Aqui replico o meu comentário numa página de ‘’facebook’ dedicada ao assunto.

 

 O debate desta questão, neste preciso ciclo da ‘’história’’ de Portugal, da Europa e em particular do sistema de ensino em Portugal, reveste-se, do meu ponto de vista, de um sentido particularmente oportuno e quase profético.

Começo por fazer um comentário.

Todas as reformas do sistema de ensino, tanto quanto me recorde, este apelo à memória é irónico, foram sempre da iniciativa dos seus anteriores beneficiários, qualquer que seja o ciclo a que respeita. Não me recordo também de uma só geração de beneficiários de um sistema de ensino que não se tivesse indignado contra uma geração reformista, por norma e hábito a sua.

 

Mas, de facto, tudo levaria a crer que as gerações que mais se deveriam indignar seriam as beneficiárias de uma dada reforma, às quais o novo horizonte e  perfil do sistema é apresentado compulsivamente. Resta notar que os beneficiários de uma dada reforma mal ainda iniciaram o seu ciclo de eleitores,  pelo que não podem ser considerados responsáveis pelos efeitos das opções feitas já pelos seus antecessores. De facto, as gerações beneficiárias de uma dada reforma do sistema seriam, à partida, aquelas que se poderiam considerar menos representadas nas opções de uma dada reforma, que foi iniciativa arbitrária das gerações precedentes, que se virão a manifestar lesadas pelos seus efeitos no seu estatuto.

Os senhores verão que com este comentário introdutório eu não pretendo legitimar a reforma em referência, nem as gerações que dela beneficiaram e beneficiam, nem o sistema que a promoveu, nem o regime de representatividade que a impôs.

Na verdade, as minhas preocupações são outras.

 

O primeiro objectivo assinalado na Declaração de 1999 reza explicitamente:

‘’Adopção de um sistema com graus académicos de fácil equivalência, também através

da implementação, do Suplemento ao Diploma, para promover a empregabilidade dos

cidadãos europeus e a competitividade do Sistema Europeu do Ensino Superior.’’

 

Atenção, senhores, este é o primeiro objectivo, não é o segundo nem o terceiro. É por ele que temos que aferir o perfil e o sentido do novo sistema de ensino superior vigente na União.

 

Numa linha de pensamento em que há muito vou insistindo, de novo mergulho num ‘’conceito’’ que mobilizou acriticamente pelo menos meia dúzia de gerações de beneficiários do sistema de ensino superior anteriores à reforma de Bolonha. LITERACIA.

 

Os agora críticos da reforma de Bolonha são as gerações formadas no quadro, ou no redil, do imperativo descritor LITERACIA. Foram os seus arautos, os seus promotores e os que ergueram os ditames da LITERACIA como modelo de aferição dos conhecimentos ou da ‘’cultura’’ operacional como dispositivo produtivo num dado sistema de mercado.

 

Assim colocada a questão, o debate será longo e seguirá o seu caminho. Por isso, vou tentar, brevemente, circunscrever alguns temas pelos quais, penso, se deveria iniciar.

 

Eu duvido de que, em 1999, alguns, mesmo poucos dos beneficiários do sistema de ensino superior pré-Bolonha, nomeadamente dos que agora se manifestam, tivessem consciência do que na verdade era a União Europeia, com a sua ideologia e perfil político predominante neo-liberal explícito, como espaço de reordenamento geo-estratégico do espaço de mercado global. A maioria talvez lhe cantasse louvores e talvez a maioria dos que estão aqui a manifestar-se ainda cantem.

Seja, a reforma de Bolonha visava, de acordo com os objectivos enunciados, promover a empregabilidade e a competitividade dos seus beneficiários. Obviamente não podia ser retroactiva, não podia retribuir aos anteriores beneficiários os anos a mais que tinham cumprido na sua formação, que, afinal, visava no essencial a empregabilidade.

Resta notar que a empregabilidade não é, no quadro da óptica liberal capitalista dos promotores da reforma, apenas nem principalmente um bem para os futuros empregados, mas um bem para a máquina produtiva.

 

O que é mais irónico, com toda a certeza, é que para castigo daqueles que cantavam loas à União Europeia, ao liberalismo e a outras ideias ‘’literatas’’ do programa e protocolo ideológico de Bruxelas, a empregabilidade, com ou sem mais ou menos literacia, ausentou-se do horizonte dos beneficiários do sistema de ensino superior, quer dos anteriores quer dos posteriores a Bolonha.

Então, o que me preocupa é que a crítica ao protocolo de Bolonha se centre na guerra étnica entre meia dúzia de gerações por acesso a mais justas e equilibradas vias e oportunidades de acesso à empregabilidade. De novo. Será uma guerra étnica com que o sistema contava e que utilizará como dispositivo ordenador do mercado de trabalho.

 

Resta referir, para posteriores desenvolvimentos, que, até o sistema entrar em crise, a componente estrutural da sua estratégia era a ‘’formação profissional’’, que já se propunha cobrir todas as áreas de ‘’conhecimento’’ e todos os ciclos de aprendizagem. O protocolo de Bolonha surge como uma antevisão e uma alternativa à falência da ‘’formação profissional’’.

Mas as gerações de beneficiários do sistema anteriores ao protocolo de Bolonha foram aquelas que mais benefícios tiraram da formação profissional, como formandos e como formadores.

 

Só para iniciar um debate.

 



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23:23


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